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Autismo e Sexualidade


Este é um resumo do capítulo do meu livro: 
SOUZA NEVES, Regiane. Transtorno do Espectro Autista: Conhecer, Diagnosticar, Intervir e Orientar. Souza & Neves Edições. Clube de Autores. 1ª edição. São Paulo, 2019


As questões em torno da sexualidade representam um tema incontornável na história da humanidade, quer devido à sua constante negação ou repressão, quer à sua excessiva exposição.

Já na esfera privada, é esperado que qualquer pessoa, ao longo do percurso de vida, se tenha deparado com desafios, incertezas e experiências em torno da sua sexualidade, inevitavelmente devido aos aspectos vivenciais do seu próprio corpo e do outro. Os receios, as dúvidas, as crenças enviesadas e os mitos acerca da sexualidade continuam, hoje e sempre, bem presentes na mente humana.

Se abordar a sexualidade no ser humano e no desenvolvimento normativo já comporta alguma dificuldade, compreender como é vivida e expressada em pessoas com um diagnóstico do espectro do autismo é exponencialmente mais complexo. Os estereótipos acerca das pessoas com autismo tendem a representar estas pessoas como alguém que tem pouco ou nenhum interesse em relações sociais e românticas, e, por conseguinte, os autistas moderados e severos, são considerados muitas vezes como assexuais. Porém, a evidência empírica e científica contradiz estas crenças demonstrando que as questões em torno da sexualidade também importam às pessoas do espectro, seja ele de nível leve, moderado ou severo. Na verdade, sabe-se que estas pessoas relatam um interesse global em comportamentos sexuais.

É importante dizer novamente, que nem todas as pessoas pertencentes ao espectro do autismo possuem as mesmas características, interesses, preferências, pelo que se torna difícil traçar perfis específicos. Por sua vez, as próprias capacidades e funcionamentos cognitivos variam muitíssimo entre pessoas que pertencem a este quadro. De acordo com a literatura, pensa-se que jovens e adultos com mais dificuldades ao nível do funcionamento cognitivo têm mais problemas relacionados com a comunicação e com aptidões sociais, e apresentam mais comportamentos sexuais não normativos. 

Por sua vez, vários estudos preliminares evidenciam que as pessoas com este diagnóstico, especialmente as mulheres, demonstram uma maior diversidade em termos de orientação sexual. Já os homens tendem a ter um menor número de relações sexuais ou românticas. 

As experiências sexuais prévias são frequentemente solitárias e em alguns casos existem outros problemas sexuais associados percebidos como tendo impacto negativo na vida de muitos dos jovens, tanto mulheres quanto homens, tais como a hipersexualidade (transtorno sexual caracterizado por um nível elevado e incontrolável de desejo e atividade sexual a ponto de causar prejuízos na vida do indivíduo), a assexualidade (falta de atração sexual a qualquer pessoa, ou pequeno ou inexistente interesse nas atividades sexuais) ou a disforia de gênero (se identifica como sendo do gênero oposto).

Sabe-se também que, apesar das pessoas com TEA demonstrarem interesse em relações sexuais e íntimas, recebem menos educação sexual e, quando recebem, ela tende a não ser ajustada às suas necessidades e características. Essa educação é de extrema importância, para que a pessoa (criança, adolescente, adulto) conheça seu corpo, entenda o que é carinho e o que é violação, para que não seja inclusive, abordada de forma errada por terceiros, ou sofra com abusos e violências sexuais, físicas e psicológicas. 

Na prática, os jovens com TEA representam um grupo com alguma vulnerabilidade nesta área, devido a inúmeros desafios com que se deparam diariamente. Por exemplo, dificuldade em encontrar um parceiro/a devido às limitações que têm na interação social, dificuldades na tomada de decisões e na comunicação pragmática, leitura enviesada das pistas sociais, maior nível de ingenuidade e interpretação literal, ou barreiras e constrangimentos associados às hipersensibilidades sensoriais.

Algumas crianças e jovens com TEA, também têm comportamentos sexuais em contextos e locais inapropriados, como por exemplo, tocar seu órgão genital, possivelmente devido a uma combinação de fatores como hipersensibilidades sensoriais, impulsividade e dificuldade em antecipar o efeito que o seu comportamento pode ter perante a visão dos outros. Nesse momento, é essencial evitar brigar, castigar e muito menos humilhar. É igualmente importante não reagir de forma agressiva, tentar dar a menor atenção possível ao comportamento no momento e conversar mais tarde acerca da importância da sexualidade para o nosso crescimento, mas também da necessidade de ajustá-la a contextos, locais e momentos apropriados. Se estes comportamentos se tornarem difíceis de controlar, é fundamental encontrar outras estratégias, como por exemplo, tirar a atenção do ato e reduzir a tensão física apertando uma bola de borracha.

Apesar de existirem alguns dados fornecidos pela literatura científica que nos permitem compreender melhor a vivência das relações amorosas e da sexualidade em pessoas com TEA, esta continua a ser uma área pouco explorada em termos clínicos. Mais ainda, é uma área que traz consigo problemas e dúvidas na prática e vida diária dos autistas e suas famílias.

Tal como qualquer pessoa, as pessoas com TEA querem sentir-se aceitas, desejadas e amadas, só precisam compreender um pouco melhor a forma como tudo acontece. Para as pessoas com TEA, o amor, a intimidade e a sexualidade representam todo um mundo novo, confuso e complexo ao qual desejam pertencer. Nisto, tal como em tantas coisas, são exatamente iguais a todos nós.

Relacionamentos são complexos, independente de ser alguém com TEA. Sabemos que relacionamentos envolvem sentimentos, emoções, paciência, compreensão... e infinitas possibilidades. Por isso, não se deve privar o autista de ter essa experiência, ela é necessária para todos. Ajuda a amadurecer como ser humano.

Enfim, espero ter colaborado com algumas de suas dúvidas. Se você se interessou sobre o assunto ou quer entender melhor as dificuldades do seu filho ou aluno, entre em contato e agende uma sessão de orientação. Para profissionais da psicopedagogia que necessitam de auxilio para diagnóstico e intervenção adequada, realizo supervisão nos seus atendimentos. 

Dra. Regiane Souza Neves
- Psicoterapêuta
- Neuropsicopedagoga
- Neuropsicóloga
- Psicopedagoga
- Psicanalista
- Psicomotricista
- Orientadora Vocacional e Profissional
- Diagnóstico e intervenção para os problemas emocionais, cognitivos e sociais que interferem na aprendizagem e comportamento

Consultórios em Osasco, Alphaville e São Paulo. Atendimento com hora marcada para crianças, adolescentes, adultos e idosos. Não atendo convênios e não realizo atendimento on-line. Whatsapp 11 95973-6360. 

Consultas à partir de R$ 100,00 para crianças e adolescentes - R$ 120,00 para adultos e idosos.